porto velho - ro, 02 Novembro 2019 01:56:57

    SilvioSantos

    coluna

    Publicado: 25/08/2019 às 08h29min | Atualizado 25/08/2019 às 08h32min

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    Dona Rosália – do Mocambo, do Areal e do Bar do Calixto

    No próximo final de semana, dona Maria Rosália completa 72 anos de idade. Portovelhense nascida no Mocambo no ano de 1947, hoje dona..

    No próximo final de semana, dona Maria Rosália completa 72 anos de idade. Portovelhense nascida no Mocambo no ano de 1947, hoje dona Rosália como é carinhosamente chamada, é considerada a matriarca do movimento Samba Autoral que acontece todo primeiro sábado do mês, justamente no Bar que foi criado pelo seu marido, Calixto e é administrado pelos seus filhos, com seu olhar atento para tudo que acontece, em volta. Eximia cozinheira, durante a entrevista, passou algumas de suas apreciadas receitas. “Os meninos gostam da galinha caipira que preparo. Na realidade não tem segredo, é como se diz, preparada na graxa, ou seja, apenas na banha da própria galinha, fica uma delícia dizem meus filhos”. Outro prato que dona Rosália tem como especialidade, é o peixe Tambaqui na caldeirada que ela prepara com alho, cheiro verde, pimentão e chicória. “Vou botando o peixe e vou mexendo, depois que o peixe pega o tempero, é que coloco a água pré-aquecida, é comer com arroz brando e farinha d’água”. Essas e outras iguarias como buchada de bode são especialidades da dona Rosália. É melhor acompanhar a entrevista.

    ENTREVISTA

    Zk – Como é mesmo seu nome?

    Dona Rosália – Meu nome é Maria Rosália Amaral Calixto nasci no bairro do Mocambo aqui em Porto Velho, no dia 30 de agosto de 1947. Meu pai chamava-se José Amaral da Silva ele era carpinteiro e minha mãe Francisca (dólar).

    Zk – Como foi sua infância no Mocambo?

    Dona Rosália – Naquele tempo a criação era muito rígida, os pais não deixavam os filhos soltos, a gente enquanto criança obedecia mesmo, então no meu caso, minha mãe não deixava a gente se afastar muito do terreiro de casa, a brincadeira era ali na frente do quintal, só que a gente brincava mesmo, era de roda, da pira, pulando macaca (amarelinha). Era muito bom, eu e meus irmãos naquela algazarra de criança, era uma brincadeira sadia. Agora sair por aí, não saí não e se teimasse em ir muito longe de casa a peia cantava. Lembro que no Mocambo tinha umas árvores grandes, que faziam sombras e a maioria da meninada brincava embaixo daquelas árvores.

    Zk – Até quando a senhora morou no Mocambo?

    Dona Rosália – Meus pais ficaram morando lá até o ano de 1958 e depois fomos morar no bairro do Areal exatamente na rua 13 de setembro perto da igreja de Nossa Senhora de Fátima que já existia, só que era onde hoje é o Centro do Menor e ainda não era Santuário.

    Zk – Como era aquela área do Areal?

    Dona Rosália – Por ali onde existe o Santuário de Fátima era uma espécie de sítio que tinha muitas arvores; mangueira, cafezal. açaí, seringueira, jaqueira, tucumã e muitas outras fruteiras.

    Zk – Qual era o padre responsável pela igreja?

    Dona Rosália – Era Dom João Batista Costa nosso Bispo Prelado, ele mesmo era quem comandava as ações que aconteciam na igreja, depois foi que veio o padre Mário Castgna. Quando o padre Mário passou a ser o vigário, o negócio ficou mais rígido, por exemplo: Mulher com vestido decotado não entrava, saia curta nem pensar se durante a celebração se uma criança começasse a chorar, ele solicitava que a mãe ou quem fosse o responsável saísse da igreja que era para não atrapalhar a missa. Mesmo com tudo isso, o padre Mário era muito querido pelos fiéis que frequentavam a igreja de Nossa Senhora de Fátima no Areal.

    Zk – Com certeza a senhora ainda testemunhou a existência da mina de areia que deu origem ao bairro. Onde funcionava em qual local do bairro as construtoras pegavam areia para as construções?

    Dona Rosália – A principal mina era onde hoje está o colégio Getúlio Vargas dali saiam carradas e carradas de areia em caminhões e caçambas. O areal ia até a entrada do Mocambo descendo pela rua Esron Menezes. Existia outro areal pelo lado da Tenreiro Aranha. Era um movimento muito grande pois a cidade estava em construção, novas ruas estavam sendo abertas. A avenida Sete de Setembro tinha acabado de ser aberta entre a praça Jonathas Pedrosa e a Gonçalves Dias e era mais quem queria construir naquela área e assim era preciso muito areia, apesar de que na própria 7 de Setembro existir um local de onde se tirava areia, ficava entre a Ladeira do Maria Auxiliadora até perto da residência do Dr. Oswaldo Piana (pai) ou melhor dizendo, onde hoje existe um loja de vender CD e outras lojas de roupa, só que o areal ali era pequeno.

    Zk – Como a juventude se divertia naquele tempo?

    Dona Rosália – A maior concentração da juventude naquele tempo era aos domingos na praça Marechal Rondon. Minha irmã mais velha leva a gente para passear ali, era muito bacana assistir a Banda de Música da Guarda Territorial se apresentando na famosa Retreta. A turma ficava rodando a praça os mais saidinhos mexendo com as meninas na tentativa de conquista-las. Tinha a matinê do Cine Teatro Resck e do Cine Brasil. O movimento na praça Rondon ficava até por volta das nove horas da noite, quando começa a segunda seção do cinema e a gente ia embora pra casa. Eram muito divertidos os domingos de Porto Velho na praça Rondon.

    Zk – Como foi que a senhora conheceu o seu Calixto?

    Dona Rosália – Na realidade casei com o Calixto em 1962 bem novinha mesmo. Na época ele era ‘marreteiro’, tinha uma banca onde vendia cereais na Feira Modelo que funcionava onde hoje é o Mercado Central ali ele vendia farinha, feijão, arroz, milho e outros produtos e quando casamos passei a ir também pra feira ajudar meu marido.

    Zk – Vamos falar mais sobre a Feira Modelo?

    Dona Rosália – Pelo que meus pais me contavam, a primeira feira de Porto Velho era em frente ao Mercado Municipal e funcionava onde hoje é a praça Getúlio Vargas, quando inauguraram o Palácio do Governo a feira foi transferida para a rua do Coqueiro hoje Euclides da Cunha entre o Clube Internacional (Ferroviário) e o SALFT (Ceron). Depois construíram um galpão que foi batizado como o nome da Feira Modelo e funcionava onde hoje é o Mercado Central. Aquele espeço só deixou de ser a Feira Livre quando o Mercado Municipal pegou fogo em 1966 e a prefeitura então construiu boxes no galpão da Feira Modelo para abrigar o comercio deles. Aí a Feira deixou de ser Feira e passou a ser chamada de Mercado Central.

    Zk – Desde quando vocês moram na esquina da rua Jacy Paraná com a Brasília?

    Dona Rosália – Aqui o Calixto comprou na década de 1970. Quando nos mudamos pra cá o Calixto passou a vender galinha caipira. Ele encomendava galinha caipira de Cuiabá, Rondonópolis, dia domingo o movimento era grande o povo da cidade vinha de todo canto comprar galinha caipira aqui em casa. Não sei dizer se naquele tempo existiam outros vendedores de galinha caipira na cidade, só sei que aqui em casa o movimento era grande. Vale lembrar que a gente não matava a galinha a pessoas comprava e levava e mais, não éramos criadores de galinha, não tínhamos granja, apenas comprávamos e vendíamos para a população de Porto Velho. Lembro que as galinhas vinham em caminhão que transportava boi, eles botavam as capoeiras de galinha em cima da cobertura da carroceria do caminhão.

    Zk – Depois o ponto virou taberna ou foi primeiro bar?

    Dona Rosália – A gente vendia de tudo, era uma taberna como outra qualquer, vendendo arroz, óleo, feijão, charque essas coisas, até bem pouco tempo a gente ainda vendia esses produtos. De uns tempos para cá a atividade principal é Bar.

    Zk – Como foi que o Bar do Calixto se transformou no principal ponto de encontro dos carnavalescos?

    Dona Rosália – A mudança foi recebida com muito carinho. A turma que frequenta aqui são pessoas carismáticas, respeitador, trata todo mundo bem.

    Zk – Pera aí. Voltando no tempo. O Calixto e a Senhora eram Cutuba ou Pelecurta?

    Dona Rosália – Sorrindo muito. A gente não se metia em política não. O Calixto nunca votou porque era analfabeto, o interessante é que ele era muito bom em matemática, era um professor, mas, na leitura, não lia nada. Então nunca nos envolvemos com essa política que chamavam de Cutuba e Pelecurta.

    Zk – Com todo esse movimento de sambistas carnavalescos a senhora se envolve na brincadeira. É folião de algum bloco?

    Dona Rosália – Não, nunca desfilei por nenhum bloco ou escola de samba, apenas gosto de apreciar. Hoje sou torcedora da escola de samba Asfaltão.

    Zk – Como começou o movimento carnavalesco aqui no Bar do Calixto?

    Dona Rosália – Quem começou com isso foi o Toninho Tavernard, o Eudes e o filho do Chicão. Eles conversaram com o Calixto sobre criar um Bloco e então nasceu o Bloco Calixto & Cia. O bloco tinha tudo pra dar certo, mas, a burocracia fez com que os meninos parassem de colocar o bloco.

    Zk – O Bloco parou mais o movimento ficou?

    Dona Rosália – Pois é! Acontece que a Tenda do Asfaltão é praticamente em frente ao bar e a turma passou a se reunir aqui, primeiro pra beber uma cerveja no intervalo dos ensaios e depois passaram a realiza o Projeto Samba Autoral aqui na nossa calçada e o negócio pegou de vez. Hoje quando se fala em Samba Autoral o Bar do Calixto vem na frente. Eu particularmente acho é bom, a turma é animada o negócio é tão bom que durante esse tempo todo, nunca aconteceu uma confusãozinha sequer, durante as rodas de samba.

    Zk – Então?

    Dona Rosália – Muito obrigado por você me presentear com essa entrevista na véspera do meu aniversário de 72 anos.


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    sobre Silvio Santos

    Jornalista. Atualmente é editor do caderno de Cultura do jornal Diário da Amazônia. É um apaixonado pela Cultura de Porto Velho. Mantém uma coluna diário no jornal Diário da Amazônia. Conhecido carinhosamente por Zé Katraka.

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