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Diário da Amazônia

Fatos e fotos denunciam perigos que rondam as escolas

“Os problemas da escola? Eu ando com eles no meu peito. Literalmente visto a camisa da luta contra a violência que infelizmente tem..

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Publicado: 15/12/2014 às 08h57min | Atualizado 28/04/2015 às 04h03min

“Os problemas da escola? Eu ando com eles no meu peito. Literalmente visto a camisa da luta contra a violência que infelizmente tem crescido entre os jovens. Em decorrência dessa falta de segurança no meio escolar surge outra grave situação: a falta de professores e de pessoas que queiram trabalhar nas escolas da rede pública”, diz Sebastião Leitão – mais conhecido pelos alunos como Sabiá -, coordenador de disciplina do Instituto Estadual de Educação Carmela Dutra (IEECD), em Porto Velho.

Este relato também faz parte das preocupações do Unicef – Fundo das Nações Unidas para Infância – que apoia pesquisas desenvolvidas no Brasil que têm como objetivo mapear o crescente fenômeno da violência nas escolas – principalmente entre os adolescentes; bem como identificar as causas e os efeitos sobre os alunos, professores e corpo administrativo e técnico das instituições de ensino.

Os números registrados pela edição 2014 do Mapa da Violência indicam que a partir dos 13 anos, o número de vítimas de homicídios vai crescendo rapidamente, até atingir o pico de 2.473 na idade de 20 anos. A partir desse ponto, o número vai caindo lenta e gradativamente.

Embora as pesquisas recentes sobre a violência nas escolas brasileiras ainda sejam consideradas incipientes – por focarem, situações regionais ou localizadas -, os resultados apontam os principais tipos de violência. Uma delas – publicada pelas Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) – registra que tanto os estudantes quanto o corpo técnico-pedagógico concordam ao apontar como um dos problemas, em muitas escolas, a formação de gangues ou o tráfico de drogas no espaço escolar ou no entorno das mesmas.

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PREOCUPAÇÃO

As pesquisas analisam ainda que, nos primeiros anos deste século, a preocupação com a violência nas escolas aumentou. Para Sabiá – que atua há 30 anos no serviço público, sendo oito anos dedicados à educação, trabalhando especificamente com adolescentes e jovens aqui da capital – “a escola se tornou a maior vítima de um sistema que precisa ser repensado e reestruturado com urgência. O que tem gerado esse caos nas escolas? A violência mais latente é evidenciada no relacionamento entre os próprios alunos: agressões verbais e físicas; ameaças contra os próprios colegas em sala de aula, professores e funcionários em geral. Mas há uma série de fatores externos que ampliam e tornam mais grave esse quadro”, narra o coordenador disciplinar.

INFLUÊNCIAS

Segundo o Mapa da Violência, na década 2002/2012 o número total de homicídios contabilizado passou de 49.696 para 56.337, o que representa um incremento de 13,4%, semelhante ao incremento populacional do período que, segundo estimativas oficiais, foi de 11,1%. Esses números são reflexos de muitos problemas sociais e acabam influenciando o sistema educacional brasileiro e coloca em risco o processo de ensino e aprendizagem no âmbito escolar.

A professora Gedneide Vasconcelos – 31 anos de experiência em sala de aula – relata que tem conhecimento de muitos casos de violência contra os professores e entre os próprios alunos – todos, cometidos por estudantes. “Mas, observo que ultimamente o nível de agressividade vem aumentando, principalmente entre as adolescentes, que discutem e partem para a violência física por motivos banais ou por causa de algum namorado”, registra. Outro fato observado pela professora Gedneide diz respeito às drogas. Atualmente, ela ensina em uma escola localizada no bairro Areal da Floresta/PVH e assegura que nessa instituição o trabalho de fiscalização ao alunado, dentro da escola, é permanente. “Em 2013 acompanhamos o caso de um adolescente que, inicialmente, foi identificado como usuário; depois tivemos a informação de que ele vendia drogas para os colegas. Foi feito o acompanhamento com o apoio do Conselho Tutelar; a direção chamou a família do aluno para tratar do problema, mas não houve êxito. Por fim, ele foi afastado da escola”, narra a professora.

 A formação de gangues ou o tráfico de drogas no espaço escolar ou no entorno das mesmas é uma preocupação que atormenta tanto os estudantes quanto o corpo técnico-pedagógico das escolas.

A formação de gangues ou o tráfico de drogas no espaço escolar ou no entorno das mesmas é uma preocupação que atormenta tanto os estudantes quanto o corpo técnico-pedagógico das escolas.

FALTA DE LIMITES GERA INSUBMISSÃO

O professor de psicologia do comportamento, Reginaldo Pedroso, afirma que são muitos os fatores que influenciam direta e indiretamente para que haja aumento de casos de violência nas escolas. Segundo ele, precisa-se visualizar que este fenômeno envolve e afeta três grandes instituições: a família, a escola e o Estado. Analisa que “de uma forma geral, o mundo mudou de forma rápida e intensa. Hoje, nós temos um modelo de família bastante diferente daquelas das décadas de 70 e 80, por exemplo. Temos que considerar, inclusive, que as gerações formadas a partir dos anos 90 têm outros valores. Aliás, é uma geração que costuma relativizar os princípios de obediência e respeito que eram muito fortes na minha época”, admite.

O psicólogo assegura que é fácil perceber que há um sentimento latente de insatisfação e de busca por experiências novas e que por isso os adolescentes e jovens têm um grau elevado de insubmissão às autoridades constituídas e de concentrar as prioridades em torno de si mesmos. Qual a diferença principal entre essas gerações? Limites. É preciso que se restabeleçam os limites. Além disso, “outro fator a ser estudado mais profundamente é o modelo curricular e a estrutura física das escolas brasileiras que não acompanharam as mudanças ocorridas na sociedade, ao menos, nessas duas últimas décadas. Não se fizeram as adequações necessárias e isto acelerou o processo de desmotivação dos estudantes e dos professores pelo ambiente escolar,”analisa.

COMÉRCIO ILÍCITO DE DROGAS 

Aluno do 9º ano do IEECD – F. L. – 15 anos – confirma que não é fácil se preservar “dos perigos que há na escola”. Ele conta que os xingamentos, ameaças e brigas são frequentes no ambiente em que estuda, “mas tudo acontece, principalmente, na hora do intervalo, porque têm câmeras nas salas de aula. As meninas estão mais agitadas; elas saem aos tapas por qualquer coisa e sempre estão na disputa por namorado; a gente já está acostumado com isso”, confessa. Segundo o estudante, outra situação que ele e os colegas presenciam constantemente, entorno do Instituto, diz respeito ao comércio ilícito de drogas. “A gente sabe que há alunos que já são viciados; outros experimentam só por curiosidade e gostam de conversar sobre isso nos corredores. Aqui dentro da escola me sinto mais seguro, porque tem fiscalização, mas quando tinha a presença do guarda era melhor. Todo mundo sabe que é fácil enganar as câmeras; então, muitas coisas acontecem e não são registradas por elas”, declara.

O professor de psicologia do comportamento chama a atenção das autoridades políticas e dos responsáveis diretos pelo sistema educacional em nosso país, alertando que é urgente mudar “esse cenário de violência nas escolas públicas. Como iniciar essa mudança? Além de promover uma reforma radical da LDB (Lei de Diretrizes Básicas), precisamos fazer o resgate dos valores e princípios morais no seio da família; construir novamente a autoridade do professor em sala de aula. Há mecanismos para isso. Estamos passando por uma transição de mudanças socioculturais e dentro desse processo de adequações e reorganização das macroestruturas sociais devem ser priorizados os ajustes na educação. A educação é a base para o desenvolvimento das relações entres os indivíduos e fornece instrumentos para que estes saibam como se comportar e conviver”, conclui.Untitled-1 650

VIOLÊNCIA NA AMAZÔNIA

As estatísticas do Mapa da violência 2014 apontam que a distribuição espacial da violência homicida, que atinge principalmente adolescentes e jovens, quando evidencia a realidade dos municípios, revelam uma fonte de descobertas para análise dos fatores que incidem na produção e reprodução desse tipo de violência e apresentam elementos que contribuem para delinear políticas específicas de enfrentamento. No relatório constata-se que a criminalidade juvenil apresenta várias nuanças, conforme as diferentes situações dos municípios de zona de fronteira, dominados por megaestruturas voltadas ao contrabando de armas, de produtos, de pirataria e rotas de tráfico.

Dentro desse cenário estão inclusos os municípios do arco do desmatamento amazônico, incentivados por interesses políticos e econômicos em torno de grandes empreendimentos agrícolas que se apoiam em madeireiras ilegais, grilagem de terras, extermínio de populações indígenas e trabalho escravo; também municípios amazônicos, boca de absorção de biopirataria; ou municípios com domínio territorial de quadrilhas, milícias, tráfico, produção ilegal de entorpecentes; ou tanto ou mais importante que as anteriores, municípios e áreas onde impera uma sólida cultura da violência, crimes por motivos fúteis e banais.



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