Expediente

Reportagem e Edição: Etiene Gonçalves
Revisão textual: Rosália Silva
Fotos: Livia Wu e Etiene Gonçalves
Direção, Captação e Edição de vídeo: Atta Mídia e Educação
Infográficos: Itaú Social e NETPIX – Agência Web
Implementação: NETPIX – Agência Web
Apoio e Agradecimentos: Itaú Social/CENPEC/MEC

O lugar onde vivo

Este é o tema para a 6ª edição da Olimpíada de Língua Portuguesa, um concurso ‘recheado’ de ações no qual os professores espalhados por todo o país são atraídos a fazerem parte de uma história, orientando a escrita de diversos gêneros literários que aproximam dos saberes e da cultura local.  Ainda vale destacar que, a proposta é aprimorar as práticas de ensino de leitura e escrita em sala de aula através de oficinas de produção de texto.

A idealização do projeto é do Itaú Social e do Ministério da Educação, com a coordenação do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec), através do Programa Escrevendo o Futuro.

Segundo a superintendente do Itaú Social, Ângela Dannemann, a temática se repete por um motivo simples. “A intenção é ter uma radiografia, um panorama, um voo dos diversos lugares que existem em nosso país. Hoje, temos uma concentração tão grande em diversas cidades que a gente começa a perder de vista essa diversidade (território, cultura, sotaques…): o que existe nos municípios mais longínquos?”, questionou, dizendo sobre a grande variedade de riquezas que ficam registradas nos escritos dos participantes.

A ideia, desde que foi criado o concurso, de acordo com Anna Hellena Altenfelder, presidente do Conselho de Administração do Cenpec, era ser suficientemente amplo. “Esperávamos que através dele pudéssemos dar conta de toda essa diversidade, de todas as realidades. Ao longo dos anos, ele se tornou realmente um retrato do Brasil através dos seus alunos e alunas, por meio de um olhar crítico sobre o lugar onde vive e a busca de soluções e possibilidades é uma marca da Olimpíada”.

“É um movimento que traz toda a sociedade civil para dentro da Escola e da Educação, é muito importante e, assim, temos um traçado que vai falar mais e entender a Educação. Atualmente, a gente fala muito disso entre poucos, mas precisa ficar muito claro para todos por causa da importância da Educação para o país e, depois, para o desenvolvimento de cada um”, complementou Ângela.

Quem participa? Quais categorias e suas etapas?

Para participar é fácil. Após as adesões das Secretarias Estaduais e Municipais de Educação (Seduc/Semeds), as inscrições dos professores são legitimadas. Com isso, o diretor (a) autoriza os respectivos professores (por uma ou mais escolas) e, assim, eles já podem realizar as oficinas com seus alunos das turmas estabelecidas da rede pública, do 5º ano do Ensino Fundamental ao 3º ano do Ensino Médio. 

As categorias seguem uma estrutura definida: “Poema” (5º ano do Ensino Fundamental), “Memórias Literárias” (6º e 7º anos do Ensino Fundamental), “Crônica” (8º e 9º anos do Ensino Fundamental), “Documentário” (1º e 2º anos do Ensino Médio) e “Artigo de Opinião” (3º ano do Ensino Médio).

Todo o esquema segue normalmente, em comparação aos anos anteriores a diferença está apenas na inclusão de uma nova categoria: Documentário. Nele, os alunos trabalharão em trio e deverão fazer juntos a inscrição do projeto (composto pela sinopse, argumento e roteiro) e o documentário propriamente dito, em vídeo.

Em todas as categorias, a Comissão Julgadora levará em consideração a presença de aspectos próprios da categoria textual e aspectos gerais de gramática e ortografia.

Relatório de Prática

Sabe-se que todos os envolvidos são participantes e vencedores. Portanto, os professores terão acesso a uma metodologia especial. Ou seja, terão uma imensidão de conteúdos curriculares que estão previstos no ensino da Língua Portuguesa, de acordo com a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), e farão parte de uma rede de formação a distância e terão recursos didáticos ao seu alcance. Ao fim, eles poderão enviar os seus Relatos de Prática e, um total de 20, que melhor retratarem a suas experiências com os alunos e sem ter vínculo com a seleção de texto do aluno, de acordo com o regulamento da 6ª edição | 2019, da OLP, terão destaques ao término do concurso.

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Onde se inscrever?

Desde o dia 20 de fevereiro deste ano, estão abertas as inscrições, que seguem até o próximo dia 30 de abril, gratuitamente, pela internet através do site www.escrevendoofuturo.org.br/concurso. Neste primeiro momento, é extremamente importante que as Secretarias Estaduais e Municipais de Educação façam a adesão, bem como os professores. Em seguida, cada professor já pode iniciar as oficinas em sala de aula.

Traduzindo as etapas

As atividades da OLP começam com a fase escolar, quando são realizadas oficinas nas escolas com suporte de material didático disponível no Portal Escrevendo o Futuro. Depois, na etapa municipal, inicia o curso on-line: Avaliação Textual: Propostas e análises, para os membros das Comissões Julgadoras. Na fase seguinte, a estadual, o Curso on-line: Avaliação Textual: Propostas e análises, para os membros das Comissões Julgadoras. Já na fase regional, será a vez dos Encontros regionais, presença obrigatória de professores e alunos. A fase final é com o Encontro Nacional com professores e alunos para premiação.

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Seleção e premiação

A avaliação dos textos começa pela comissão escolar e será realizada entre 12 e 19 de agosto. Nas etapas municipal e estadual serão selecionados os 569 estudantes e 443 professores semifinalistas. Em seguida, ocorre a etapa regional, com cinco encontros, um para cada categoria, para a seleção dos 173 alunos e 135 professores finalistas. Ainda nessa fase, serão conhecidos os 20 professores-autores dos melhores Relatos de Prática. Na final, programada para dezembro, serão anunciados os 32 estudantes vencedores nacionais.

Ao todo, 569 alunos e seus professores semifinalistas vão receber medalhas e livros e 20 professores vencedores na categoria Relato de Prática, um notebook. Os 173 alunos finalistas vão receber medalha, um leitor de livros digital e assinatura de livros digitais, 135 professores ganharão os mesmos prêmios, e as 35 escolas vão ser contempladas com placa de homenagem. Os 32 alunos vencedores terão medalha e viagem cultural para uma cidade brasileira (acompanhadas por monitor), 20 professores terão medalha e uma semana de imersão pedagógica internacional e as 20 escolas vão ser contempladas com placa de homenagem e acervo para a biblioteca escolar definido pela organização do concurso.

Uma participante, uma história e um conselho (que vale ouro!)

Aos 16 anos, pessoa simples, a aluna Samira de Oliveira Moura, do 2º ano do Ensino Médio da Escola Estadual Governador Jorge Teixeira de Oliveira, de Jaru, distante 291 km até a capital Porto Velho, já passou pela experiência de OLP.

De acordo com a estudante, a experiência que lhe foi dada é inexplicável. “Além de todos os conhecimentos resgatados e as viagens proporcionadas pela Olímpiada, tive a honra em ter meu trabalho reconhecido nacionalmente e isso me deixou imensamente emocionada e agradecida”, disse entusiasmada.

Samira declarou ao Diário que a OLP mudou totalmente a sua escrita, como se tivesse conhecido a ortografia por um lado mais real que o estudo em sala de aula. “Recomendo aos professores e alunos que participem da Olimpíada, pois é uma experiência única em nossas vidas. Mas, para que tudo saia perfeito é necessário ter um bom diálogo entre os envolvidos, pois o professor é a base e o aluno o alicerce”, disse determinada e com o sentimento de gratidão a professora Ediléia Batista de Oliveira, que esteve com ela durante todo o processo.

DICAs importantes

“Para que ocorra um bom desempenho na escrita e na fala, sugiro a todos que tenham interesse que leiam muitos livros e, principalmente, acessem o Portal da OLP para que possam ter acesso aos textos de anos anteriores do concurso e boa sorte para nós”, finalizou a aluna que foi finalista regional em 2016.

*o(a) professor(a) poderia se inscrever por uma ou mais escolas que lecionava.
(Fonte: Olimpíada de Língua Portuguesa)

*o(a) professor(a) poderia se inscrever por uma ou mais escolas que lecionava.
(Fonte: Olimpíada de Língua Portuguesa)

Experiência para o professor e reflexo da dedicação do aluno

Segundo a professora Ediléia Batista de Oliveira, participar de uma OLP é uma experiência ímpar. Ela tomou conhecimento do programa em 2010 e, de lá para cá, começou a trabalhar os conteúdos em sala de aula. “Desde então eu já tive a alegria de ter tido três alunos semifinalistas e dois finalistas. Entre eles, a Samira [finalista na categoria “Memórias Literárias”, em 2016]”, lembrou. Na conversa, ela expressou a sua avaliação sobre a sua última aluna em que considera vencedora. “Ela sempre foi uma aluna muito dedicada e gosta muito de ler. O resultado só foi o reflexo desta dedicação e trabalho desenvolvido durante as oficinas em sala de aula”, contou Ediléia Batista. 

“A gente sabe que não é um trabalho fácil, pois exige muito do professor. Mas, o resultado é gratificante. O que mais motiva a participar é poder ajudar o meu aluno a exercitar outros lugares sobre onde vive desenvolvendo a prática da leitura e escrita, mas também, é claro ver no rostinho deles, a ansiedade e expectativa em ter o texto classificado para poder viajar e conhecer outras cidades e pessoas. Já estamos motivando todos para participar em busca de mais um resultado positivo nacionalmente”, narrou a professora a sua atuação.

Mudanças, Gargalos e Diversidade

Ângela Dannemann informou que foi feito um grande movimento no ano passado (encontros, reuniões, por exemplo) para promover mais esta oportunidade em prol do Ensino. “Um trabalho conjunto é firmado. A edição segue bienal sendo que entre um ano e outro há encontros com todos que fazem parte da ‘rede de ancoragem’ para fazer isso acontecer, principalmente, de professores e alunos sobre melhorias no processo como um todo”, enfatizou.

Já para a coordenadora geral de Valorização, Saúde e Bem Estar dos Profissionais da Educação do Ministério da Educação (MEC), Mara Silvia André Ewbank, o reconhecimento do trabalho com Políticas Públicas tem repercutido fortemente no que diz respeito à formação de professores. “A gente sabe que este é um grande gargalo do nosso país e temos muita coisa a ser feita. Vamos acompanhar todas as etapas desse processo e tem tudo para ser um grande sucesso esta nova edição”, complementou a representante do MEC.

“Nós trabalhamos a cada edição para que o Programa seja um sucesso. Ele tem uma capilaridade imensa e, nós, alcançamos na última edição 98% dos municípios brasileiros. Um número significativo de professores e alunos! Isso causa uma diversidade bem importante, sendo um destaque também, neste período de execução, a escuta de seus principais autores: alunos e professores, que estão na base”, comentou Anna Hellena Altenfelder, presidente do Conselho de Administração do Cenpec.

Parceiros da OLP

A Olimpíada de Língua Portuguesa conta com a parceria da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime), do Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed), da Fundação Roberto Marinho e do Canal Futura.

Rondônia busca melhores resultados

O balanço das OLP demonstra que ocorre de forma bem tímida a participação rondoniense. Até o momento são 13 jovens adolescentes e seus professores [neste número não somam os professores vencedores em Relatório de Prática] que se envolveram e chegaram à semifinal e à final da Olimpíada em diversas cidades.

Os alunos e professoras já premiados pela OLP nos anos de 2014 e 2016 em Rondônia são: Leonardo Silva Brito (Alessandra Cegobia de Andrade, professora), de Presidente Médici; João Paulo Polinski Saturnino (Jossane Perini da Silva, professora), de Cacoal; Samira de Oliveira Moura (Ediléia Batista de Oliveira, professora), de Jaru, Diogo Aguiar Cruz (Mariza Terezinha de Araújo, professora), de Teixerópolis;  Emilly Letícia de Oliveira Lombardi (Roseli Sandri Guimarâes Ismail, professora), de Rolim de Moura; Adrian Leandro da Costa (Célia Maria Gonçalves, professora), de Ji-Paraná; Aline Brito Glanzel (Alan Francisco Gonçalves Souza, professor) e Vânia de Oliveira Santos (Alan Francisco Gonçalves Souza, professor) e Sônia Maria Martins Oliveira (professora); de Espigão d’ Oeste; Isabella Kétlin Silva Barros  (Andreia de Souza Rosa, professor), Ivone Fátima de Lima Aguiar (professora); de Alta Floresta d’ Oeste; Ábner Fabris Emerick (Rosemeri Krumenaur, professora), Arlete Lopes dos Anjos (professora), de Ariquemes e Odair Juinior Morin (Emerson José Campagnolli, professor), de Chupinguaia.

Em entrevista ao Diário, Angela Dannemann, Superintendente da Fundação Itaú Social, reconheceu que, apesar da região Norte ser a menor em participação nas OLP, perdendo para Sudeste (1º), Nordeste (2º), Centro-Oeste (3), Sul (4), “Mas, tem ganhos  de vez em quando. Isso demonstra qualidade. Talvez não tem mais [inscrições] por falta de acesso. A gente acredita e tem buscado cada cada vez mais fazer novas parcerias, disseminação e incentivos para que novos organismos participem”.

Angela disse que há dois anos a Fundação tem passado por mudanças. Entre elas, a dedicação e atenção às redes sociais. “De pouco em pouco isso vai mudar (…). Costumo brincar que, somos um grande navio e a gente tem de fazer as experiências digitais que a gente não tinha antes soltando ‘pequenos barquinhos’ e testando isso”, ressaltou. “Todos os professores vão para o Portal e para os veículos digitais. Estamos trabalhando com equidade, para chegar primeiro àqueles que mais precisam de (in) formação. Esta é a forma de trabalho para uma melhoria da educação de qualidade para todos”, complementou.

A professora de Língua Portuguesa Célia Maria Gonçalves leciona na EEEFM Cel Jorge Teixeira de Oliveira, do Distrito de Nova Londrina, em Ji-Paraná, distante cerca de 380 km até a Capital rondoniense. Ela tem tradição nas OLP, pois participa desde o surgimento, em 2002, quando ainda era intitulada “Viagem Nestlé pela Literatura”, dois anos depois o nome teve a sua alteração para o atual. “Meu sentimento é de gratidão, realização. Isso por ter contribuído de forma significativa na aprendizagem de cada aluno. Tivemos neste tempo resultados positivos e significativos”, contou Célia Maria. 

“Já fomos [a Escola], em 2012, premiados finalista na etapa estadual e semifinalista na regional. Em 2014, conseguimos chegar à fase regional e, em 2016, finalista na fase municipal”, relatou a professora Célia Maria, com o sentimento de dever cumprido no acompanhamento de seus alunos.

De acordo com a professora Célia Maria, a participação de Rondônia na OLP tem uma importância para além do incentivo da produção literária, pois em 2019 está sendo trabalhado para elevar ainda mais o nível de aprendizagem do aluno. “Os alunos estarão participando de provas de larga escala como, por exemplo, Prova Brasil e Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb). As sequências didáticas que o Programa Escrevendo o Futuro oferecem vêm contribuir para novos resultados que esperamos que sejam alcançados através do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). Além de almejamos estar representando o nosso estado em etapas e categorias dentro do programa”, contou esperançosa.

Relato de Experiências - do professor ao aluno

Motivação. Esta é uma palavra que se mantém a cada ano para milhares de professores de escolas pelo Brasil afora e, também, de muitos milhares de alunos. Todos se unem e juntos constroem um “mundo” de conhecimento, histórias, vivências e transformam vidas.

A seguir, conheça a história de dois alunos premiados, em duas edições da Olimpíada de Língua Portuguesa (OLP): Francisco Alves Quirino (2014) e Ana Karolina Alves Amorim (2017). E, de que quebra, você pode conhecer uma mulher inspiradora de vidas, a professora Alzeni Pinheiro de Souza.

O trio de personagens deste especial esteve, no dia 20 de fevereiro de 2019, no Auditório Guajuviras, do Centro Empresarial Itaú Unibanco, na capital paulista, por ocasião da cerimônia de lançamento da 6ª Olimpíada de Língua Portuguesa. Eles bateram um papo informal com o repórter Etiene Gonçalves e, falaram sobre suas experiências com as OLP e suas impressões em virtude da leitura e escrita.

Uma feira que rima, é lucratividade acima

Morador de Afogados da Ingazeira, no sertão de Pernambuco, o finalista da Olimpíada de Língua Portuguesa (OLP), em 2014, na categoria “Crônica”, Francisco Alves Quirino, disse ao Diário que, o seu texto foi um misto de duas coisas muito forte na sua região, o Vale do Pajeú: a Feira e a Poesia. Esta última é bem forte e marcante no seu povoado. Segundo ele, é basicamente neste lugar [a Feira] que gira a economia local. “Ela acontece uma vez por semana em cada cidade”, informou.

“Uma crônica deve se pautar assim como os artigos de jornais devem se pautar em histórias que ocorrem no dia a dia. Então, nada mais é do que isso na vida do povo sertanejo do que a feira e a nossa poesia”, garantiu Francisco Alves. O seu texto, portanto, trouxe o título “Feira: cheiros, temperos e versos”, mesclando de forma diferenciada e com várias rimas. O aluno Francisco, à época, foi provocado e estimulado a redigir um texto falando de tudo aquilo que está a sua volta, o seu lugar e a sua história. Naquela época, de estudante e escritor, estava acompanhado pela sua professora, fez valer uma simples expressão. Um resgate cheio de cultura e história está disponível em o Mosaico de sensações ou como manter o lugar onde vivo em mim.

“Tudo foi muito importante para mim. Não somente para ir a outros estados, conhecer outros textos, experiências e histórias, mas sim, levar um pouco da minha identidade local para que outras pessoas também tenham acesso. Especialmente, poder levar o nome da minha região, da nossa cultura pra outras culturas e, também, auxiliar no processo de incentivo a escrita na minha escola [Centro de Excelência Municipal Dom João José da Mota e Albuquerque], da cidade. Esse momento inspirou para que outros jovens também pudessem participar da OLP e de outras ações em prol da escrita e leitura, sendo como uma ação cidadã”, completou Francisco Alves Quirino.

A orientação do texto “Feira: cheiros, temperos e versos” foi da professora Patrícia Amaral Barbosa.

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Menina jovem, uma voz que ecoa

Ainda adolescente, em 2016, a estudante Ana Karolina Alves Amorim, desbancou um grupo inteiro e, à época, na final estavam 152 alunos finalistas nacionalmente. Ela frequentava a Escola Ced 03 de Brazlândia – Brasília (DF). Através do texto “Também, olha a roupa dela”, inscrito na categoria “Artigo de Opinião”, Ana Karolina fez soar a temática que envolve a cultura do machismo, durante a 5ª edição da Olimpíada Nacional de Língua Portuguesa.

Em entrevista naquela época, declarou que era tudo surreal e que conseguiu representar a sua escola e o estado. “Fiquei muito honrada de representar a cidade com um tema que eu considero muito relevante. É muito bom ver o meu trabalho reconhecido”, disse à ocasião. Ana Karolina demonstra por onde vai que é apaixonada pela leitura, por escrever. Ah, a menina tem um futuro ainda mais promissor, há alguns anos, escreveu um romance e, ainda no Ensino Médio, descobriu uma paixão pela Filosofia. (Confira um pouco da sua história em O gosto pela escrita, a publicação de um livro e o trabalho com a Olimpíada.)

Porém, os anos se passaram e, em 2019, ela voltou a ganhar destaque em cerimônia de lançamento das OLP, em São Paulo. Agora, com 20 anos de idade, ela relembra que o seu tema era, e ainda é, um problema que precisa ser enfrentado pela sociedade. “Escrever me fez perceber que eu tinha uma voz. Ela merecia ser ouvida, pois a Olimpíada possibilita que os alunos percebam o poder que eles têm com as palavras e que a leitura transforma muito mais”, expôs.

“Este momento todo é muito importante, pois me fez perceber o que realmente eu queria para a minha vida enquanto carreira e que é preciso ter causas, sobretudo, por haver tantas questões e que a gente precisa lutar por elas. Esta é a minha luta até hoje”, reafirmou Ana Karolina. “Escrever é resistir. Através da Websérie Meu lugar tem histórias – Olimpíada de Língua Portuguesa: uma escrita coletiva sobre o Brasil é mais um exemplo de como vale a pena falar disso e de como inspirar outras pessoas também”, completou.

A orientação do texto “Também, olha a roupa dela”, foi da professora Mayssara Reany de Jesus Oliveira.

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Sintonia através das ondas do rádio

Carregando na bagagem muito conhecimento e a transferência dele, a professora Alzeni Pinheiro de Souza [também diretora da Escola Municipal Geralda Márcia Pereira Gonçalves], em Três Marias (MG), tem se orgulhado para ser ‘expert’ em alunos com bons resultados nas OLP. “Participar da Olimpíada é um ganho. A metodologia ensina muito e nós o temos para a vida e para o dia a dia. Ela é de fácil compreensão e que os alunos vão tomar conhecimento da língua de forma mais clara, de forma mais objetiva e vão tomar gosto pela escrita e pela leitura”, argumentou.

O bom uso das metodologias e sua aplicação é uma realidade. Lá em 2002, uma de suas ideias deu muito certo. Os seus alunos aprenderam de forma ‘gloriosa’ com todas as oficinas e práticas através do Programa Escrevendo o Futuro. Mas, todo aquele aprendizado não poderia ser deixado “dentro da escola”.

O seu plano imediato foi procurar a direção da Rádio 98 FM, de Três Marias, para que fosse divulgado todos os textos e poemas dos alunos para “quem quisesse ouvir”. O projeto audacioso deu certo e, logo, um programa rádio foi colocado no ar, o Rádio-escola, com poesia, notícias da escola e música, e que vai ao ar de segunda a sexta-feira, no período vespertino. Agora, com mais de quatro anos na programação da emissora, o programa é apresentado às quartas-feiras, na Rádio Comunitária Canaã.

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Reflexões acerca da leitura e da escrita

Ler e escrever é um dom construído. Para uma reflexão mais profunda acerca desta temática, é preciso embeber dela. Por isso, a “escrevivência” da premiada escritora mineira Conceição Evaristo, homenageada na 6ª Olimpíada de Língua Portuguesa (OLP), é muito importante neste processo. (Clique aqui e conheça a trajetória da escritora)

Tudo o que Conceição escreve influencia o seu leitor a um profundo exercício de aproximação através de sua experiência de vida, seus lugares, objetos, relações. Uma das suas primeiras indagações é: Como fazer para que professores possam fazer os seus alunos a escrever?

“Ora, escrever [pensando na Literatura Brasileira], tem sido hoje um desafio. Parece que, escrever, é algo que é dado, uma potência, uma oportunidade que é dada para determinadas categorias sociais, por exemplo, homens… (…) Ainda, é muito mais difícil receber um certo reconhecimento. A escrita é vista como ‘um lugar sagrado’, a determinadas pessoas”, analisou a escritora.

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Conceição disse ver a escrita e a leitura como um lugar de pertença de todos. “A escola e professores têm uma responsabilidade muito grande, principalmente, na pública, onde a grande maioria que frequenta vem de classes populares, em que grande parte dos alunos vai contar com o objeto livro dentro da escola”, mostrou. Segundo ela, a escola tem de ser um lugar que se propicia esta atividade e não um lugar onde a iniba.

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Pensando na extensão da Língua Portuguesa, do Norte a Sul, é preciso ter a visão da amplitude dos falares brasileiro. “Vamos pensar nos idioletos familiares… aproveitando a diversidade linguística e fazer deste material elementos para o texto escrito”, comentou Conceição Evaristo.

“Se a gente pensa numa sociedade pluriétnica e pluricultural, como é a brasileira, a escola precisa estar atenta a isso e, que, ela se concretize, no ato da escrita e da leitura (…) a OLP tem de ser também um meio e compromisso de oferecimento desta diversidade de um português falado e escrito no Brasil”, refletiu a escritora mineira.

Dificuldades

“Um dos elementos que podem bloquear a escrita, como se fosse um jogo de causa e efeito, é também a falta de leitura. Ela provoca, pois quando se lê um texto, não precisa, necessariamente, pegar uma caneta ou ir para o computador escrever sobre. Se ele é provocativo, para o bem ou para o mal, mentalmente você reescreve, discute com este texto, acolhe e briga. Se faz isso, em termos de escrita, sem sobra de dúvidas, confirma o poder provocador do texto. O excesso da leitura, a possibilidade em grande quantidade, provoca também este desejo de excesso da escrita”, analisou Conceição Evaristo.

Conceição ao falar de leitura, lembrou do educador, pedagogo e filósofo brasileiro Paulo Freire, pois ele avalia que “A leitura do mundo precede a outra leitura”. Ela não é vista apenas do ponto de vista escrita, mas sim do rosto das pessoas, dos jeitos, espaços físicos e de memória (…) Escrever é um hábito de observação. Eu acho impossível escrever a partir do nada. Há alguma coisa que provoca a escrita”, reiterou.

Na reflexão de Conceição Evaristo, a leitura precede a escrita. Ela não precisa ser só alfabética. “A gente pensa na leitura do mundo. Há várias maneiras de textualizar. Por isso que eu tenho dito sobre as culturas. Nós trazemos um cabedal de memórias, que é construído através da palavra, da oralidade. Eu não nasci rodeada de livro, eu nasci rodeada de palavras. Eu penso que para escrever você precisa de um excesso de conteúdo que lhe provoque a escrita, passando pela escrita já lida ou a apreensão do lugar onde eu vivo, além de geográfico, do afetivo. Ela é uma experiência de tudo o que foi aprendido… do que vive”, expôs.

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Tendência

A OLP provoca a escrita de textos em alguns gêneros textuais, sendo eles, o Poema, as Memórias Literárias, a Crônica, o Artigo de Opinião e o Documentário. “O lugar onde eu vivo” é carregado de experiências do sujeito.

 “A valorização do lugar (social, afetivo, emocional e identidade) de pertença de cada aluno. Se, a Escola considerar estes lugares como importantes, irá despertar este desejo de escrita em seus alunos. Por mais que se tenha uma experiência oralizada, vivemos numa sociedade em que, o que se vale é o que está escrito”, indicou a escritora.

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Em outro momento, Conceição Lobato alertou que os sujeitos que vivem e experimentam diversas situações precisam narrar histórias que fazem sentido. “Ele só vai saber que faz sentido a ele quando for visto que fará sentido para o outro. Quem escreve, normalmente, quer ser lido. Se quer contar ao outro, deseja ser ouvido. A escola deve ser colocada como uma ‘escuta’ de seus alunos”.

“(…) Se nós vivemos numa sociedade em que Direitos e Deveres são de pertenças de todos, temos de pensar que, este direito da escrita e leitura, deve ser vista como direitos de cidadania. As escolas estão auxiliando os seus alunos a se apoderarem de algo que a Constituição Brasileira garante. Uma Escola que se preocupa com a formação cidadã está comprometida com seus alunos”, finalizou a escritora Conceição Evaristo.

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Websérie Meu lugar tem histórias

O Programa Escrevendo o Futuro e a Olimpíada de Língua Portuguesa apresenta a websérie Meu lugar tem histórias – Olimpíada de Língua Portuguesa: uma escrita coletiva sobre o Brasil

A produção audiovisual é composta por seis episódios, nos quais são percorridas as diferentes histórias de seis estudantes e uma professora que, ao participarem da Olimpíada, vivenciaram um caminho de transformações, aprendizados e abertura para novas oportunidades.

A série também conta com uma versão especial, apresentada no evento de lançamento da 6ª edição da Olimpíada de Língua Portuguesa. No episódio, a escritora mineira Conceição Evaristo entrelaça essas trajetórias, por meio de suas próprias experiências e seu olhar sobre o processo da escrita.

Conheça o lugar onde vivem Francisco, Ana Karolina, Brenda, Bianca, Alzeni, Isadora e Adolfo.

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