Page 5 - Porto Velho104 Anos
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Memória
Lembranças de uma adolescência vivida nos anos 60 em Porto Velho
sessão de cinema no Cine Teatro Resky, o que obriga- va aos frequentadores vol- tar rapidamente para casa para aproveitar a fraca ilu- minação pública existente, ou  car limitado à luz das lanternas a pilha, cujo por- te era um hábito quase ge- neralizado.
A intermitência do servi- ço de energia elétrica fazia com que nas residências, as famílias cujas rendas permitiam utilizassem ge- ladeiras acionadas a quero- sene para a preservação de alimentos. O mesmo acon- tecia com a iluminação caseira, para o que as lam- parinas, candeeiros e lam- piões eram fundamentais.
Como em todo o Brasil, o futebol era quase ‘reli- gião’ e o templo maior, o Estádio Paulo Saldanha. Naquele pequeno estádio, com capacidade para pou- co mais de 1.000 pessoas, as emoções foram muitas. Torcedor do Ferroviário várias vezes campeão, nos- so grande adversário era o Ypiranga, dono do Paulo Saldanha. Aliás, como es- quecer, por exemplo, o se- nhor Derochi, hoje mereci- damente nome de praça de esportes? Sabíamos todos que, nos jogos do Ferrovi- ário ninguém podia sentar à sua frente na arquibanca- da. O lugar  cava vazio, ou o incauto poderia receber um pontapé na costa quan- do, durante um ataque de seu clube do coração, o ata- cante se demorava a decidir pelo chute ao gol.
Apesar de já em 1910 os construtores da Madei- ra-Mamoré se utilizassem da telefonia, antes mesmo da conclusão da linha te- legrá ca implantada por Rondon, não havia então sistema telefônico residen- cial, disponível apenas em algumas repartições esta- tais. As ligações com o res- to do país somente podiam efetuar-se na parte da ma- nhã por um período entre duas e três horas, quando a Radional dispunha de um canal interurbano para uso
dos portovelhenses.
O isolamento qua- se total da cidade so- mente era superado pelas embarcações que navegavam o rio Madeira, por dois ou três voos comerciais sema- nais das empresas aéreas Panair do Brasil e Cruzeiro do Sul e, pelo Cor- reio Aéreo Nacional (CAN), importantís- simo e mesmo vital serviço prestado pela Força Aérea Brasileira que, a partir de 1947 estabeleceu uma linha regular até o ex-
tremo do Acre.
Em se tratando de via-
gens, porém, nada supe- rava o prazer lúdico das de trem entre Porto Velho e Guajará Mirim, pela E. F. Madeira-Mamoré. Por vezes, nas férias escolares, delegações de Porto Velho obtinham da diretoria da EFMM passagens gratui- tas para Guajará, onde iam disputar torneios estudan-
Antônio Marrocos
O ano de 1960 mal come- çara quando a notícia do início das obras de constru- ção da rodovia que ligaria Cuiabá (MT) a Cruzeiro do Sul (AC), passando por Por- to Velho, a BR-29, tornou- se o tema de quase todas as conversas na cidade. A estrada teria cerca de 3.300 quilômetros de extensão total, constituiria o meio mais racional e e caz de transporte a ligar a Ama- zônia Ocidental ao centro -oeste e daí ao restante do país, trazendo consigo am- plas possibilidades de pro- gresso para a região.
Recém-entrado na ado- lescência, como, talvez, para a maioria dos garotos porto-velhenses, o maior interesse que tal assunto despertava relacionava-se a uma possível movimenta- ção que a obra traria para a cidade, pacata demais, como nos parecia. Entre os adultos tornara-se assunto obrigatório, quase único, em vista das oportunidades de trabalho que surgiriam, e das perspectivas de desen- volvimento para nosso Ter- ritório Federal de Rondô- nia, até mesmo assegurar sua transformação em mais um Estado da Federação.
Cursava então o 2o ano do ginasial no Ginásio Dom Bosco, mantido em Porto Velho pela Congregação Salesiana desde o início da década de 30. Obviamen- te, para nós, adolescentes, muito mais atraentes que questões sobre mercado de trabalho e progresso eram os primeiros namoros (no mais das vezes, um simples apertar e afagar de mãos); as peladas nos campos do Nacional (3a Companhia de Fronteira, hoje 17a Bri- gada) ou do Ypiranga - pois o ‘Estádio Aluizão’ era p’ros grandes clássicos do futebol local: Ferroviário x Ypiranga, ou Moto Clube x Flamengo.
Assim como eram os ba- nhos na Cachoeira de Santo Antônio ou no Igarapé das Pedrinhas (eram proibidos,
perigosos) e outros riachos que cortavam a cidade ou corriam nas proximidades; o footing das tardes de do- mingo na Praça Rondon, onde aconteciam as pri- meiras paqueras; ou comer ingá trepado nas ingazeiras que havia ao longo da Rua José Bonifácio.
Empinar papagaios de papel colorindo o céu com suas cores fortes, dar ca- tadas, trançar e cortar os papagaios dos demais em- pinadores nos dias ensola- rados e de bom vento, com grande participação de adultos, era prática para os meses das férias escolares, principalmente. Usávamos talas da folha de buriti (da nervura da folha dessa pal- meira), linha de costura, cola e papel de seda para confeccioná-los. Mas era o cerol, mistura de vidro mo-
de Londres, Rádio Voz da América ou Rádio Haba- na Libre que, se bem me lembro, transmitiam dia- riamente em língua portu- guesa, e eram ouvidos com maior clareza.
A vida para um adoles- cente em PV era despre- ocupada e de muita liber- dade. Não eram rígidas as restrições para um adoles- cente dirigir um veículo motorizado, frequentar bailes noturnos, ou mes- mo um bordel. Di culdade maior era o prosseguimen- to da formação escolar, que obrigava as famílias que ti- nham posses a enviar seus  lhos para Belém, Rio de Janeiro e outros destinos para completar os estudos. Aos demais, restava buscar uma pro ssão no comércio local, ou no serviço público.
mente quando enfrentava o Clube da Boa Vontade de Francisco A. Monteiro, o Abemor, Vladimir Carva- lho, Johnson e outros.
“Barão” era o Grupo Escolar Barão do Solimões ainda existente (com de- nominação atualizada), a mais tradicional escola pública de ensino funda- mental na cidade, em cujas instalações foi realizada a cerimônia de instala- ção do Território Federal do Guaporé. Os times do Atlas eram formados por: Aldenir Paraguassu, Carlos Otino de Freitas, Eduardo Lima e Silva, Euro Touri- nho Filho, João de Deus Simplício da Silva, além deste autor. Lamentavel- mente, a memória não me ajuda a nominar todos. Os esquecidos perdoem-me.
Porto velho-RO, 2 de outubro de 2018 - Página 5
Porto Velho
tis de futebol, basquete- bol, vôlei, futsal e outras modalidades esportivas. Além de, claro, participar de festas, namorar e cruzar o Mamoré para comer sal- teñas em Guayaramerín, na Bolívia.
Uma farra! Em Guaja- rá nos hospedávamos em casas de amigos, no dormi- tório da ferrovia que  cava no andar superior do prédio da estação, ou nas depen- dências da 6a Companhia de Fronteiras do Exército. Aliás, além da 6a Cia., o aparato militar no Territó- rio era completado pela 3a Companhia de Fronteiras em Porto Velho, um pelo- tão no Forte Príncipe da Beira, pela Delegacia Flu- vial da Marinha de Guerra e a pequena guarnição da Força Aérea.
Esse ambiente sereno foi logo substituído pelo vai e vem frenético de máquinas e trabalhadores que alte- rou toda a rotina de vida da cidade, quando foram iniciadas as obras de cons- trução da rodovia BR-29 (364) determinadas pela vontade férrea do presiden- te Juscelino Kubitscheck e comandadas pelo chefe da Comissão Especial de Construção, engenheiro Valdemar Uchoa de Oli- veira. Parafraseando John Reed, aqueles foram os dez meses que, mais que abalar, transformaram Rondônia.
Dois anos após a abertura da estrada, quando concluí o ginasial, uma feliz coincidên- cia modi cou os planos de meus pais de me enviar para Itajubá (MG), onde deveria prosseguir meus estudos. Minha família mudou-se para o Rio de Janeiro gra- ças à oportunidade aberta pelo Departamento Nacio- nal de Estradas de Roda- gem onde meu pai passara a trabalhar, chamando-o para atuar no laborató- rio de solos do 7o Distrito Rodoviário, o que facilitou enormemente o prossegui- mento dos meus estudos re- gulares e a graduação.
A abertura da rodovia reanimou a esperança de dias melhores para uma população já sem grandes expectativas em relação ao futuro, sentimento fácil de entender face às limitações reinantes na economia e infraestrutura local. Na- quele ano, as 8.631 tone- ladas da produção extra- tivista alcançaram o valor Cr$ 1.082.587.000,00 (R$ 124.330.561,00) tendo a borracha, sempre ela, con- tribuído com 90% do valor e 64% do peso total (1). A produção incorporava ain- da castanha-do-pará (8% e 33% respectivamente), as gomas não elásticas, madei- ra e ipecacuanha e, as peles silvestres (38.652 unidades, principalmente de caititu e veado, além de 5.869 ja- carés) que alcançaram o valor de Cr$ 7.144.000,00 (R$ 820.458,00). Na agri- cultura, a área plantada foi de 4.756 ha, feijão o principal produto (37%), e a produção valorada em Cr$ 73.426.000,00 (R$ 8.432.667,00).
ído com cola líquida, cuida- dosamente distribuída pela linha, o responsável pela empolgação da brincadeira de soltar papagaio.
Outra revolução, a dos transistores e rádios de pi- lha, espraiava-se, mesmo que as estações de rádio nacionais não tivessem boa penetração. O noticioso da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, Repórter Esso, conduzido pelo jornalis- ta Heron Domingues era um líder de audiência, mas era comum acompanhar- mos os noticiários da BBC
A prática de esportes era uma das opções mais comuns para o lazer, em- bora sem a orientação de técnicos que pudessem di- recionar os mais talentosos. Falando nisso, impossível não relembrar o ‘Atlas’, um time informal de vô- lei, basquete e futebol de salão (os mesmos atletas disputavam todas as mo- dalidades), não inscrito em qualquer Federação, que ademais não existiam, mas de memoráveis batalhas es- portivas nas quadras da 3a Cia e do Barão, principal-
A vida pacata e sem mui- tos sustos permitia que no calor equatorial do verão amazônico (inverno/prima- vera do hemisfério sul), as famílias dormissem com as janelas abertas, o que ali- viava o desconforto provo- cado pelo desligamento da eletricidade por volta das dez horas da noite, somen- te religada no dia seguinte a partir de 6h até por volta de 10h da manhã.
Os desligamentos da usi- na de “força e luz” ocor- riam cerca de quinze minu- tos após o encerramento da
O texto acima é parte integrante de relatos privados do autor Antô- nio Marrocos, cedidos à jornalista e professora Aurimar Lima para edição especial do Diário da Amazônia – proibida a reprodução.
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