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Porto Velho
Rogério Weber:
Porto velho-RO, 2 de outubro de 2018 - Página 6
Um jovem intrépido e uma rua que nem sempre ligou Porto Velho de Norte a Sul
Aurimar Lima
A atual rua Rogério Weber nem sempre foi um caminho reto que ligava a região norte ao sul da Ca- pital. O jornalista e me- morialista Anysio Gorayeb conta que o norte da rua já foi chamado de Curral das Éguas, era onde as pesso- as da ferrovia guardava os animais; entres os anos de 50 a rua no percurso que compreendia da Pinheiro Machado até próximo a 7 de Setembro, já se chama- va Major Guapindaia, de- nominada antes da criação do Território Federal do Guaporé.
Gorayeb acredita que com a chegada do 5° BEC foi necessário uma rua para ligar a cidade até o quartel e essa rua foi estendida da Pinheiro Machado ao quartel, “por sinal a maior rua da cidade que chamá- vamos de Norte Sul, e um ano e meio depois com a morte do Rogério Weber a avenida recebeu o novo nome em homenagem ao pai do jovem – conta Any- sio Gorayebe
Rogério Weber era um jovem de 19 anos que ti- nha muitos amigos sau- dosistas, mas quem estava presente no dia do aciden- te era o empresário Sidney Alarcão, que mora atual- mente no Rio de Janeiro. Sidney, acompanhado de um soldado do BEC cha- mado Euclides, que tra- balhava com o pai, Sidney Alarcão, na época capitão engenheiro e hoje coronel engenheiro reformado, viu o intrépido Rogério Weber perder a vida.
A compra da motocicleta
Alarcão começa a histó- ria contando sobre o pivô do acidente: a curiosida- de dos jovens para pilo- tar uma Harley Davidson Italiana. Segundo ele, essa história começa no  nal de março e início de abril de 1970, quando a Zona Franca de Manaus tinha sido expandida para al- guns produtos, como mo- tocicletas, equipamentos e outras coisas para a área de abrangência da Supe- rintendência do Desen- volvimento da Amazônia (Sudam), e Porto Velho foi agraciado com a medida.
De acordo com o sau- dosista, diversas pessoas compravam produtos de Manaus, principalmente motocicleta, e isto impul-
sionou a chegada das pri- meiras motocicletas em Porto Velho. “Meu avô foi nos visitar nessa época e encontrou em Manaus um amigo dele chamado Sou- za Arnold e ele disse que tinha recebido a represen- tação da Harley David- son Italiana para Manaus. Nessa conversa, meu avô gostava de moto e meu pai também, apenas olhou as motos. Chegando em Por- to Velho conversou com meu pai que se interessou também, e na volta ao in- vés de ir por Cuiabá-MT ele foi por Manaus, onde pegava o Corujão e ia di- reto para o Rio de Janeiro. Em Manaus ele conversou com o amigo e comprou uma Harley Davidson 350 italiana. Meu vô acertou com Souza Arnold para despacha-lá para Porto Ve- lho” - conta Alarcão sobre a aquisição da motocicleta que Rogério conduzia no dia do acidente.
Essa motocicleta chegou no Porto do Cai N’água em Porto Velho no dia 27 de maio de 1970, recebi- da pelo pai de Alarcão e foi guardada em um dos galpões da Ferrovia Ma- deira-Mamoré, pois a mes- ma estava desmotantada. Ninguém da família  cou sabendo da existência da motocicleta.
Em Porto Velho ape- nas uma pessoa montava esse tipo de motocicleta, um boliviano, conhecido como Espanhol. O pai de Alarcão contratou o ser- viço, mas não queria levar a moto para a loja porque era uma surpresa para a família, então o pro ssio- nal foi até o galpão onde montou a motocicleta. “Ele nunca tinha montado este tipo de motocicleta, então ela  cou com uma série de problemas, um de- les era que ela falhava mui- to e demorava a dar parti- da, e vez por outra morria” – explicou Alarcão.
A falha
No dia 02 de junho Alarcão [pai] foi buscar a motocicleta dentro do gal- pão da Madeira-Mamoré para guardar na casa de um amigo proprietário de uma empresa de táxi aéreo que  cava no aeroporto do Caiari, lá a moto  caria até o aniversário do  lho Sidney Alarcão, dia 11 de junho de 1970. Quando o Alarcão [pai] fazia o per- curso para chegar a casa do empresário, no trecho da esquina da então Ma-
Foto: Arquivo da família Alarcão/Na foto o Capitão Alarcão e Rogério Weber no ano de 1969
jor Guapindaia com a Du- que de Caxias, a moto deu problema e não quis mais funcionar. “Ele encostou a moto numa calçada e foi pra casa almoçar normal- mente. O segundo expe- diente do Batalhão come- çava às 14 horas” – lembra o  lho.
Manelão
Quando o capitão Alar- cão saiu para o trabalho com pouco mais de 5 mi- nutos o jovem Rogério We- ber chegou acompanhado de um amigo, Manoel Cos- ta Mendonça, o Manelão, e indagou sobre a moto e o local onde estava, mas Alarcão [ lho] não sabia da aquisição do pai e eles alegavam que o mecânico Espanhol havia contado que havia montado uma moto para o pai de Sid- ney. “Ele entrou foi lá na garagem olhou, olhou em volta da casa e viu que não tinha, e ninguém lá em casa sabia da existência da moto. Então ele disse que ia ao quartel falar com meu pai, e eu aproveitei para dizer que se houves- se moto me levassem para ver” – lembra Alarcão.
Rogério e Manelão pe- diram a chave da moto para o pai de Alarcão, que inicialmente não quis dar, mas na insistência cedeu achando que a moto não ia funcionar, ou não ia muito longe. “Eu sabendo que eles não iam me levar, por eu ser um pirralho, me vesti e corri para uma pe- dra que tinha na saída do Batalhão, na rua Norte Sul e  quei sentado espe- rando eles passarem. Eles passaram e estavam com a chave na mão e pergunta- ram se eu queria ir ver. Eu entrei no banco de trás do fusca”- disse Allarcão.
No meio do caminho o jovem Manelão deixou Rogério com Alarcão para realizar um serviço orde- nado pela mãe, e os dois seguiram a pé até a moto. Quando viram a moto  ca- ram entusiasmados, mas não conseguiram fazer a moto funcionar. Por volta das 17 horas o pai de Alar- cão pediu ao auxiliar Eu- clides para ir ver o que es- tava acontecendo, pois os jovens não haviam retor- nado, e o compromisso do Rogério era levar a moto para o quartel. Com a aju- da do auxiliar a moto fun- cionou, mas falhava muito e o auxiliar decidiu recon-
duzir Alarcão de carro, en- quanto o Rogério seguiu de moto para o quartel.
O acidente
No retorno para o bata- lhão, na esquina da Sete de Setembro com a então Norte Sul, a moto parou de funcionar, mas Rogério deu partida e logo pegou, era pedal. Rogério pediu que o seguissem porque achava que não ia chegar ao quartel devido as falhas constantes.
Quando passaram pelo trecho da estrada que vai para o cemitério Santo Antônio, dois carros pas- saram por eles e levantou uma nuvem de poeira que tirou completamente a vi- sibilidade dos condutores. O jovem não usava óculos, nem capacete, pois não era comum o uso naquela épo- ca. Ele reduziu a velocida- de, mas neste ínterim sai do batalhão um caminhão basculante que recolhia o lixo nas vilas do batalhão, e a falta de visibilidade de ambos resultou na colisão da moto com a lateral do caminhão. “A moto deitou e passou por baixo do ca- minhão, e o Rogério voltou para trás. Nós estávamos a uns 30 a 40 metros atras dele. Paramos. E o Rogé- rio ainda estava falando. Dizia que estava com mui- ta dor na barriga. Houve tumulto, era  nal de ex- pediente. Colocamos ele dentro do carro e levamos
para o hospital, onde hoje é o hospital de Guarnição” – conta Alarcão.
Alarcão  cou no hos- pital acompanhando o atendimento, um médico chegou rapidamente pra atender, mas o rapaz fa- leceu no centro cirúrgico. “Eu  quei sem entender, não acreditava que era algo grave. Eu não sei nem quem me levou para casa” - comenta Alarcão.
Rogério weber,  lho do coronel Carlos Aloísio We- ber, foi enterrado no cemi- tério Recanto da Saudade, construído pelo Batalhão em 1970.
Norte Sul
Sidney Alarcão conta que para se chegar a REO [Residência Especial de Obras], nome dado ao con- junto de vilas que atendia os militares no  nal de 1966 e início de 1967, havia um caminho tradicional que era pela avenida Pru- dente de Morais, Estrada de Santo Antônio e pegava o trecho da Santo Antônio até REO atual.
No início de 67 o Minis- tério da Saúde e o Ministé- rio do Interior tinha sérios problema com malária e hepatite, muitos surtos em Porto Velho, e os técnicos da CEM [Campanha de Erradicação de Malária] identi caram que o bairro Baixa da União era o foco principal de proliferação, havia casas feitas em pala-  ta que  cavam com água parada embaixo acumula- das por meses.
Os ministérios do Inte- rior e da Saúde  rmaram um convênio com o BEC para retirar o pessoal do lugar, por medida sani- tária e colocar em outra área. Foi disponibilizado pela prefeitura duas áreas, onde atualmente é o bairro do Tucumanzal e outra no bairro da Liberdade, e alo-
caram recurso para o BEC realizar o trabalho. “O ba- talhão foi rapidamente fa- zer o trabalho. Abriu ruas, colocou energia, água e construiu casas, que era de alvenaria na frente e ma- deira atras. Ainda cheguei a ver algumas dessas casas quando estive em Porto Velho” – lembra Alarcão
Segundo ele, após trans- ferir as pessoas de lugar a Baixa da União foi ater- rada, e foi aberto um ca- minho de serviço que cha- maram Norte Sul, “mas que era o nome da capa do projeto de engenharia do caminho de serviço que ligava a Sete de Setembro a então REO ” – explica Alarcão. Foi seguido o pla- no diretor até a Alexandre Guimarães, depois fez um pequeno desvio por causa da Usina de Borracha e prosseguiu ligando com a Norte Sul inicial.
“E esse caminho do ser- viço  cou por algum tem- poláde 67até73,senão me engano, anos depois já não justi cava o BEC  car com manutenção daque- le caminho do serviço, já era uma rua da cidade, e o BEC pediu ao DNER para transferir aquele ativo [ca- minho] para a prefeitura” - justi cou.
Os vereadores da pri- meira legislatura de Porto Velho resolveram então pelo nome do jovem Rogé- rio Weber, que havia se aci- dentado naquela rua e era de uma família importante para a cidade na época, foi feita a moção na Câmara e aceito por unanimidade. “Então Norte sul era o nome que tinha na capa do processo. Eu só não enten- do porque pegaram aquele pedacinho que chamava-se Major Guapindaia, que li- gava a Pinheiro Machado até Sete de Setembro, e concluíram com Rogério Weber” – opinou Alarcão.
O acidente
de um rapaz entusiasmado para pilotar uma Harley Davidson Italiana e que revela um pouco da história porto-velhense.
O PAI DE ROGÉRIO WEBER
Rogério Weber era um jovem de 19 anos  lho do primeiro comandante do 5o Batalhão de En- genharia e Construção – 5oBEC, coronel Carlos Aloísio Weber, gaúcho, um dos primeiros a ins- talar-se na Amazônia e que tinha como missão transformar a região.
O lendário coronel tem uma marca na história, para alguns o imponente,
para outros o desbrava- dor. O legado de Weber rendeu uma homenagem do Ministério do Exérci- to, através da Portaria no 363, de 14 de julho de 1999, que determinou a denominação do quartel, que passou a chamar-se de “Batalhão Cel. Carlos Aloísio Weber”.
Um ato de imponên- cia foi registrado em uma entrevista realizada em
1971, quando ao ser ques- tionado sobre a ocupação da região pelo repórter da revista Realidade so- breaAmazônia,omesmo respondeu: - Como você pensa que nós  zemos 800 quilômetros de estra- da? Pedindo licença, chê? Usamos a mesma tática dos portugueses, que não pediram licença aos espa- nhóis para cruzar a linha de Tordesilhas.
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