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    Vírus da zika teve ao menos seis portas de entrada no Brasil

    O vírus da zika chegou ao Brasil vindo do Haiti e teve pelo menos seis focos de introdução, especialmente no Nordeste. A conclusão é..

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    Publicado: 16/08/2018 às 09h32min

    (Foto: Zé Guimarães/Folhapress)

    O vírus da zika chegou ao Brasil vindo do Haiti e teve pelo menos seis focos de introdução, especialmente no Nordeste. A conclusão é do estudo “Revisitando as Principais Rotas de Entrada de Arbovírus Epidêmicos Humanos nas Américas”, coordenado pela Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) em Pernambuco.

    A pesquisa foi publicada no “International Journal of Genomics” e analisou todos os genomas existentes do vírus no mundo para chegar à conclusão do local de partida do zika que contaminou milhares de brasileiros.

    Segundo o pesquisador da Fiocruz e um dos responsáveis pelo estudo, Lindomar Pena, a rota foi a mesma feita pelo chikungunya, que também veio do Haiti por meio de um militar que participou de operação naquele país.

    O primeiro caso de zika foi confirmado no Brasil em abril de 2015, em um paciente que teve amostra colhida em Camaçari, na Grande Salvador.

    Porém, a nova pesquisa fez uma análise do relógio molecular e apontou uma estimativa de que o vírus tenha começado a circular no país em dezembro de 2013 –o que elimina a hipótese levantada no passado de que o zika teria chegado por meio de turistas que vieram ao Brasil durante a Copa do Mundo de 2014.

    Mais do que microcefalia

    O vírus da zika causou problemas neurológicos em bebês cujas mães foram infectadas durante a gravidez. Uma série de bebês nasceu com microcefalia –a maioria no Nordeste–, que depois se descobriu ser apenas um dos problemas causados nas crianças.

    Hoje, o problema é chamado de síndrome congênita do zika. A OMS (Organização Mundial de Saúde) chegou a declarar emergência mundial pelo problema em 2016.

    Entretanto, a porta de entrada exata no país do zika não tem mais chance de ser descoberta, já que, diferentemente da chikungunya, inexiste o chamado “paciente zero”.

    Apesar de ter um caso laboratorialmente confirmado na Bahia em 2015, ao mesmo tempo outros semelhantes eram enfrentados por pelo menos dois estados: Rio Grande do Norte e Pernambuco.

    Pouco tempo depois, vigilâncias epidemiológicas dos demais estados nordestinos passaram a notificar casos suspeitos.

    “Nossa análise mostra que o vírus teve várias introduções. Citamos pelo menos seis casos de pontos de entrada que conseguimos detectar, mas esse número pode ter sido maior. Não tem como dizer quais portas exatamente, mas os primeiros vírus foram aqui do Nordeste”, explica Lindomar Pena.

    “Esse primeiro caso detectado na Bahia, por exemplo, já foi autóctone, ou seja, com infecção aqui mesmo no Brasil, não teve viagem do paciente”, completa.

    Um dos fatores que podem explicar a disseminação silenciosa do vírus é que em cerca de 80% dos casos o paciente não apresenta sintomas da doença.

    Além disso, por ser um vírus circulante novo, pode ter havido imprecisão no diagnóstico clínico num primeiro momento, sendo apontado como dengue ou alguma outra virose.

    “A gente não sabe como houve a dispersão do vírus. Imagine que essa primeira pessoa chegou, e ela pode nem ter tido sintomas clínicos”, relata. “Ela é picada por um mosquito ou tem relação sexual, aí tem início do ciclo do mosquito, que pica a pessoa, pode picar um macaco e vai picando e contaminando uma área. Esse paciente pode ter entrado no Norte, e a pessoa infectada viajou para a Bahia, por exemplo”, explica Pena.

    Rota pelo oceano Pacífico

    Segundo o pesquisador, o vírus chegou à América Central por meio da Ilha de Páscoa, no oceano Pacífico, que por sua vez teve sua introdução vinda da Polinésia Francesa.

    “Como ele veio parar no Brasil não sabemos. Temos algumas hipóteses: uma seria de os militares em missão de paz que voltaram do Haiti; outra seriam os imigrantes que vieram para o Brasil ilegalmente após o terremoto naquele país”, cita o estudioso.

    Com a descoberta do estudo, Pena afirma que é necessário reforçar ações de vigilância epidemiológica naquela região.

    “Sabendo a região em que circula determinado vírus, quando uma pessoa retorna e tem os sintomas, o país toma as precauções para se proteger. Ou seja, se uma pessoa vier agora da América Central ou do Caribe com sintomas de arboviroses, vai se pensar em algumas dessas doenças. E as autoridades de saúde podem tomar medidas protetoras”, diz.

    Ele também alerta que pode haver outros vírus, reintroduções do próprio zika “que não se sabe o que podem causar”. “É preciso cuidado com portos e aeroportos.”

    Segundo o Ministério da Saúde, neste ano já foram notificados 5.941 casos suspeitos de zika no Brasil, 61% a menos do que o mesmo período no ano passado, quando ocorreram 15.214 casos.



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