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A complexa história do santo casamenteiro

Intelectual prodígio de sua época, Santo Antônio é lembrado por ser o padroeiro dos animais, dos marinheiros e… das mulheres solteiras

Por Assessoria
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Publicado: 06/06/2017 às 14h21min | Atualizado 07/06/2017 às 15h36min

Quando o jovem, Fernando Martins (ou Fernando de Bulhões, não se sabe ao certo) pediu aos seus diretores da Ordem dos Regrantes de Santo Agostinho, em Lisboa, já capital portuguesa naquele século 12, para continuar seus estudos religiosos em Coimbra. Seu argumento era que queria “evitar distrações profanas”, como aquelas que, nove séculos depois, o fariam ser, entre outras coisas, o santo do casamento.

Nascido em Lisboa em 1191, pouco se sabe sobre os primeiros anos de vida de Fernando: seus pais são desconhecidos, a data do nascimento é incerta e ninguém conhece muito bem seus parentes próximos, além de uma irmã que era freira. Por isso mesmo, seu sobrenome até hoje não é oficial: Martins poderia ser o sobrenome da mãe e Bulhões, o do pai.

Sua história registrada começa já nos primeiros anos do século 13, quando entrou em contato com padres franciscanos mortos no Marrocos após tentativas de evangelização dos mouros. Abalado sentimentalmente pelo fato – os corpos dos religiosos voltaram a Coimbra, onde foram enterrados –, Fernando mudou seu nome para Antônio a partir dos funerais, em referência ao Santo Antônio do Deserto, um cristão do Egito do período anterior a Cristo que entregou todas as riquezas aos pobres e se isolou em áreas remotas. Sua referência religiosa seria transferida para ele, já que é conhecido como o santo “dos pobres e oprimidos”.

Fernando (ou Antônio) chegou a viajar ao Marrocos para continuar a missão dos padres franciscanos, mas uma grave doença o fez retornar a Portugal sem ter proferido um único sermão em terras árabes. No regresso, seu barco foi empurrado por uma tempestade à Sicília, na Itália, onde conheceu outros religiosos que o levaram a Assis, em Portugal, onde conheceu São Francisco, já um líder católico. O encontro seria determinante para sua vida dentro da Igreja.

Após um período de isolamento – semelhante ao do santo que inspirou seu novo nome –, Antônio foi convidado a um encontro em Forli, na Itália, onde surpreendeu franciscanos e dominicanos com seu discurso intelectual e religioso ao mesmo tempo. Ficaria para sempre na península italiana, primeiro como responsável pela evangelização da região de Lombardia e depois pela de Bolonha. Com a motivação do Vaticano, foi enviado a universidades francesas em Toulouse e Montpellier para concluir os ensinos de teologia.

Quando São Francisco morreu, em 1226, Antônio foi designado seu substituto para representar a Ordem Franciscana perante o Papa Gregório IX. Viveria seus últimos dias como uma das principais lideranças da Igreja Católica na Itália, sendo indicado ministro provincial de Romagna e de Pádua. Em 1231, aos 39 anos de idade, ele morreu no caminho entre as cidades de Arcella e Pádua devido a uma hidropisia.

A comoção dos populares com sua partida e o respeito dos clérigos fizeram com que fosse canonizado santo já no ano seguinte, em 1232, pelo papa. Trinta anos depois, seria erguida a primeira igreja em sua memória: a Basílica de Santo Antônio de Pádua, na cidade de mesmo nome. Segundo a tradição, ele teria operado diversos milagres durante a vida, como uma vez em que reuniu peixes ao seu redor em uma praia para ouvi-lo falar de Deus ou quando evitou que as pessoas se molhassem durante um sermão debaixo de chuva.

O santo casamenteiro
Curiosamente, sua fama como “santo casamenteiro” não é muito lembrada nos países onde é idolatrado, como Portugal e Itália. Neles, é recordado mais como protetor dos animais, dos barqueiros, dos idosos, dos pescadores, dos agricultores, dos viajantes e marinheiros, dos pobres e oprimidos e como uma entidade espiritual que ajuda a encontrar coisas perdidas.

Trazido ao Brasil durante a colonização portuguesa, foi aqui que se tornou o santo casamenteiro por excelência, ainda que a partir de uma interpretação europeia: diz-se que, em Pádua, ele ajudava moças solteiras a conseguirem dotes e enxovais para o casamento.

Em Porto Velho, ele é lembrado não apenas por uma capela à beira do rio, mas também pela estrada que leva até a construção, que foi edificada no começo do século 20. A missão de Santo Antônio existe na região de Rondônia desde 1712.

Um dos seus milagres lembrados é o de uma mulher que, não podendo pagar pelos valores do matrimônio, ajoelhou-se aos pés da imagem de Santo Antônio, que respondeu entregando-lhe o bilhete de um comerciante. Nele, havia a orientação para o homem dar em moedas de prata o mesmo peso que tinha o papel. Quando colocaram-no na balança, o bilhete desequilibrou o equipamento, rendendo 400 escudos de prata para a moça. Com o dinheiro, ela conseguiu pagar o dote e casar.

Há ainda lendas como a que Antônio teria feito um recém-nascido falar durante uma briga em que o marido acusava a esposa de infidelidade, e outra em que uma devota, num momento de fúria, teria atirado a imagem do santo pela janela após anos sem conseguir encontrar um homem. A imagem teria caído no colo de um rapaz que passava pela rua e que, obviamente, se apaixonou pela mulher.

No Brasil, o Dia dos Namorados é uma referência a Antônio, morto no dia 13 de junho de 1231, ainda que, no nosso caso, o dia tenha sido adiantado nos anos 1940, quando a comemoração foi criada por publicitários.



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