Porto Velho/RO, 12 Janeiro 2020 10:22:41
    Diário da Amazônia

    Imediatismo leva as pessoas ao estado de estresse e frustrações

    Especialistas alertam que o exemplo dos pais contribui diretamente para que os filhos também sejam depressivos e frustrados.

    Por Sibele Oliveira/UOL
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    Publicado: 12/01/2020 às 10h06min | Atualizado 12/01/2020 às 10h22min

    Lidar com as frustrações não é fácil para ninguém. Mas será que hoje em dia a frustração é tolerada menos do que no passado? De acordo com Ana Maria Rossi, psicóloga e presidente da International Stress Management Association, a resposta é “sim”. E um dos motivos é o imediatismo do mundo moderno. “Como o tempo parece estar passando mais rápido e as pessoas estão cada vez mais impacientes, a baixa tolerância à frustração se torna frequente. Elas não estão mais tendo disposição nem vontade de esperar que as coisas aconteçam”, observa a psicóloga.

    Segundo Ana Maria Rossi, essa urgência que tomou conta das pessoas é uma marca do tempo atual. “Conseguimos tudo na hora, sejam resultados para uma busca na internet, a refeição que pedimos pelo aplicativo, as conversas temos em tempo real no WhatsApp ou likes instantâneos em nossas postagens nas redes sociais. Por outro lado, ficamos sobrecarregados com tantas coisas que somos obrigamos a fazer”, acrescenta.

    Para Lidia Weber, psicóloga e professora da Universidade Federal do Paraná, produzir muito, consumir de modo desenfreado, ter prazer ao máximo e ficar sabendo de muitas informações a todo momento tem levado as pessoas ao imediatismo. Ela acrescenta que as crianças aprendem esse modo de viver com os pais e não conseguem desenvolver resiliência para enfrentar as dificuldades da vida. “A consequência disso é uma geração que não consegue digerir bem os dissabores, além de os pais serem pouco atentos e rápidos em suas práticas educativas com os filhos. Com pouco envolvimento, criam gerações de jovens e adultos que se frustram e sofrem por qualquer incidente”, completa a especialista.

    Para Ana Maria Rossi, a permissividade dos pais faz essa intolerância aos insucessos parecer ainda maior. Porque se no passado crianças e jovens reprimiam suas reações emocionais, hoje eles têm total liberdade para se expressar. De acordo com ela, além da pressa que nos acompanha todos os dias, há um sentimento generalizado de impotência que surge como uma resposta emocional quando nossas expectativas e desejos não são cumpridos. No caso de pessoas com baixa tolerância à frustração e pouca resiliência, esse sentimento é mais intenso, pois elas sonham com uma vida sem dificuldades, querem se sentir confortáveis o tempo todo, acham que merecem tudo, não suportam o tédio e não aceitam ser maltratadas, entre outras coisas.

    Ana Maria Rossi diz que, como seus desejos não casam com a realidade, as pessoas se sentem mais desapontadas, irritadas, estressadas e desmotivadas que o normal. E tendem a reagir às situações adversas com rompantes de raiva e agressividade. Ou então desabam e pensam em desistir de tudo. “Falta a elas inteligência emocional para perceber que almejar uma vida feita exclusivamente de sensações positivas é o caminho certo para a frustração”, observa.

    De acordo com a psicóloga, quem não tolera frustrações tem uma incapacidade de suportar desapontamentos. “Mais do que pertencer a uma geração ou outra, o que leva uma pessoa a ser assim é a baixa autoestima e o pessimismo, que a faz enxergar tudo pelo lado negativo. A pessoa tende a personalizar as situações que não saem de acordo com as suas expectativas, mesmo que essas expectativas sejam irrealistas. Se algo não dá certo, é como se nada desse certo na vida”, afirma Rossi.

    Em outras palavras, a pessoa se sente responsável por tudo o que lhe acontece de ruim ou acha que decepções e insucessos só acontecem com ela. Quem faz parte do seu convívio acaba sofrendo junto. “A baixa tolerância à frustração interfere nos relacionamentos afetivos e profissionais e podem fazer com que a pessoa se torne indiferente ao que ocorre. Isso pode levá-la ao isolamento e à depressão”, frisa a psicóloga. “Além de baixa autoestima, a ausência de autoconfiança faz com que essas pessoas vejam as frustrações como fracassos”, acrescenta.

    A psicóloga Lídia Weber diz que lidar com os imprevistos e momentos ruins é mais complicado para crianças e jovens. “Eles ainda não têm a regulação socioemocional que se desenvolve com os eventos, com o tempo e de acordo com os cuidadores. A idade pode trazer sabedoria e uma maneira de enfrentar a vida de modo mais leve. Não significa que pessoas mais velhas não se abalem quando passam por derrotas, fases difíceis ou tragédias. Ou que todas se tornem sábias com o passar do tempo. Mas as vivências costumam ajudá-las a se fortalecer”, argumenta.

    Saber lidar com as frustrações é um exercício que precisa ser praticado desde cedo, conforme observa Lídia Weber. “Eventos são passageiros. Devemos aprender a analisar o erro e o insucesso para agir de forma diferente na próxima vez”, diz. Segundo ela, é possível transformar a frustração em estímulo para vencer os desafios. “Para isso, é preciso ter força de vontade, olhar a situação de forma positiva, avaliar se as expectativas são realistas, não repetir os erros cometidos no passado e tentar quantas vezes forem necessárias”, acentua.



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